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Foglietto I

Do Corpo e do Silêncio

Tema: alma · Publicado em: 24/06/2026
Colli Euganei · Veneza

Abri o peito daquele homem jovem sob a luz pálida de Pádua. Busquei com a ponta de ferro da faca, entre o coração e os pulmões, o sopro ou a centelha que os padres chamam de alma. Não encontrei senão sangue denso, carne fria que já fedia e o silêncio absoluto da matéria que se desfaz.

A vida foge como o calor da água fervida deixada ao relento. Se a alma existe, ela não habita as cavidades que o ferro pode tocar.

Lorenzo Vendramin

il Medico Scettico
O Interlocutor · Século XXI

Vendramin faz, sem o saber, o gesto mais antigo da medicina e o mais ingênuo: procura nos tecidos aquilo que os tecidos jamais prometeram conter. Sua faca é honesta. Sua decepção, previsível. Permitam-me, então, mapear o território que ele não encontrou — não para consolá-lo, mas para mostrar que o problema é mais interessante do que a ausência de uma centelha entre costelas.

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Platão acreditaria que Vendramin procurou no lugar errado por definição. A alma, para ele, é anterior ao corpo, prisioneira dele, e a morte não é extinção — é libertação. O cadáver fétido de Pádua seria, platonicamente, apenas a gaiola vazia. O pássaro já foi embora antes que a faca tocasse a carne. Há uma elegância cruel nessa visão: ela torna a anatomia irrelevante para a questão essencial. (Fédon, 64c–67b; República, Livro IV, 435b–441c)

Aristóteles, mais sóbrio e, curiosamente, mais moderno, discordaria de ambos — do mestre e do cirurgião. Para ele, a alma não está dentro do corpo como um inquilino num apartamento; ela é a forma ativa do corpo vivo, seu princípio organizador. Quando o jovem morreu, a alma não fugiu para lugar nenhum — simplesmente cessou, como a chama que não existe separada da vela que a sustenta. Vendramin, portanto, não poderia encontrá-la porque ela não era uma coisa, era uma função. A neurociência contemporânea, com seu embaraço elegante, chegou essencialmente à mesma conclusão sem jamais citar Aristóteles em voz alta. (De Anima, II.1, 412a–413a)

Descartes — e aqui a ironia se aprofunda — teria dito a Vendramin que ele estava quase certo, mas errou o endereço. A alma reside na glândula pineal. Sim. Uma glândula. Descartes, o pai do dualismo moderno, resolveu o problema mente-corpo apontando para um pequeno cone de tecido nervoso no centro do encéfalo. A história da filosofia raramente é tão cômica. A glândula pineal produz melatonina. Regulamos o sono. A alma, aparentemente, nos ajuda a dormir. (As Paixões da Alma, Artigo 31; Meditações Metafísicas, Segunda e Sexta Meditações)

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Nietzsche teria lido o fragmento de Vendramin com uma mistura de aprovação e impaciência. Aprovação porque o cirurgião ao menos teve a coragem de olhar. Impaciência porque a pergunta ainda pressupõe que há algo a encontrar. Para Nietzsche, a "alma" é uma ficção gramatical — o sujeito que inventamos porque a língua exige um sujeito para cada verbo. Eu penso, logo preciso de um eu. Mas esse eu é uma narrativa, não uma substância. O que Vendramin abriu foi um corpo. O que ele buscava era uma história que o corpo contava enquanto vivia. (Além do Bem e do Mal, §17 e §54; Crepúsculo dos Ídolos, "A 'Razão' na Filosofia", §5)

Foucault deslocaria a questão inteiramente. Não lhe interessaria onde a alma está, mas por que precisamos que ela esteja em algum lugar. A alma, para Foucault — e aqui ele é perturbador de um modo que os outros não são — não é o que liberta o corpo; é o que o aprisiona. É a interioridade fabricada pelo poder, o espaço onde a confissão, a culpa e a norma se instalam. "A alma é a prisão do corpo", ele escreveu, invertendo Platão com a frieza de um cirurgião melhor do que Vendramin. O jovem morto em Pádua carregava, em vida, uma alma construída pela Igreja, pelo Estado, pela família — uma arquitetura de controle que a morte, ironicamente, dissolveu antes que qualquer faca o fizesse. (Vigiar e Punir, Parte I, Capítulo 1: "O Corpo dos Condenados"; A Vontade de Saber, Capítulo 1)

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Freud não falaria em alma, palavra que o envergonhava em alemão — Seele — e que seus tradutores ingleses substituíram pelo clínico mind para que ele parecesse mais científico e menos vienense. Mas Freud pensava em alma o tempo todo. Para ele, o que Vendramin não encontrou na cavidade torácica existe — mas existe como estrutura dinâmica do inconsciente: o Id, o Ego, o Superego em conflito permanente, produzindo sintomas, sonhos, lapsos, desejos que o sujeito não reconhece como seus. A alma freudiana não é uma centelha; é um teatro de sombras onde os atores ignoram o roteiro. Ela não está entre o coração e os pulmões. Está na história do jovem, em seus medos noturnos, nos nomes que ele não pronunciava. (O Ego e o Id, 1923; A Interpretação dos Sonhos, Capítulo VII; Bruno Bettelheim, Freud and Man's Soul, 1983 — sobre a questão da tradução de Seele)

Jung teria ido mais longe e, para muitos de nós, longe demais. A alma — a psyche — é para Jung não apenas individual mas coletiva, estratificada em arquétipos que emergem dos sonhos e dos mitos com uma consistência que ele julgava não poder ser acidental. A anima, o aspecto feminino na psique masculina, seria uma das camadas que Vendramin jamais alcançaria com ferro. Jung flerta perigosamente com o místico, e eu o leio com a ambivalência que reservo às coisas belas e imprecisas: há algo verdadeiro na ideia de que carregamos imagens mais antigas do que nós mesmos, mas a fronteira entre a metáfora fértil e a metafísica ingênua é, em Jung, cronicamente mal vigiada. (Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, O.C. vol. 9/I; Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo, O.C. vol. 9/II, §§20–42)

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Os neurocientistas contemporâneos — António Damásio sendo o mais eloquente deles — diriam a Vendramin que ele procurou no órgão errado, mas não pela razão que Platão sugeria. A consciência, o sentido de si, o que coloquialmente chamamos de alma, emerge da integração entre o cérebro, o corpo e o ambiente. Damásio demonstrou que pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial mantêm a inteligência intacta mas perdem a capacidade de decidir, de sentir o peso moral das escolhas — perdem, em termos práticos, aquilo que os padres chamariam de consciência. A alma, se existe como fenômeno, é um processo distribuído, não um objeto localizável. Vendramin teria precisado de um tomógrafo, não de uma faca. E mesmo assim teria encontrado apenas correlatos, não a coisa em si. (António Damásio, O Erro de Descartes, 1994, Capítulos 3 e 8; O Sentimento de Si, 1999, Capítulos 1 e 9; A Estranha Ordem das Coisas, 2017, Capítulo 6)

O problema difícil da consciência — por que há experiência subjetiva, por que há algo que é ser este jovem morto de Pádua

O Interlocutor

a voz de agora
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