Lorenzo Vendramin
1509 — 1571

Lorenzo Vendramin, il Medico Scettico

Lorenzo Vendramin nasceu no inverno de 1509, numa casa de pedra de Cinto Euganeo, entre as colinas vulcânicas que se erguem ao sul de Pádua e que, em dias claros, se avistam lá de Veneza como uma fileira de sombras azuis. Os Vendramin não eram nobres — apesar do sobrenome que partilhavam com famílias maiores da Sereníssima —, mas pequenos proprietários de vinhas e oliveiras, gente de mãos calejadas e fé morna, que rezava por hábito e desconfiava por instinto.

O nome de Lorenzo é o que mais aparece porque a grande maioria dos textos são de sua autoria, além do fato de ter sido ele quem iniciou essa coletânea de escritos e mandou confeccionar a capa de couro onde estão todos esses textos, cuidadosamente guardados e organizados. Depois dele, a pasta passou de mão em mão ao longo de quatro séculos, e cada guardião anônimo que a recebeu acrescentou as suas próprias folhas antes de entregá-la à seguinte — de modo que o que começou como o caderno de um só homem tornou-se o depósito silencioso de muitas vozes, todas movidas pela mesma inquietação, nenhuma delas jamais publicada.

A infância entre as colinas

O menino cresceu naquela paisagem de termas quentes e pedreiras escuras. As colinas dos Euganeos guardavam, na rocha negra que os homens cortavam para construir, conchas e ossos de bichos que ninguém mais via vivos — criaturas de um mar que ali estivera e se fora. Foi a primeira pergunta de Lorenzo, ainda criança, diante de uma pedra partida: como pode o mar ter morado numa colina? Ninguém soube responder, e o padre da paróquia mandou que não perguntasse. Foi também a primeira vez que percebeu que a ordem de calar costuma chegar antes da resposta.

Era um menino observador e de poucas palavras, mais dado a abrir sapos e a olhar o interior das figueiras do que a decorar o catecismo. A mãe morreu quando ele tinha nove anos, de uma febre que o médico de Este não soube nomear — e essa impotência, essa cara de douto que não cura, ficou gravada nele como uma afronta. Decidiu cedo que faria melhor. Ou ao menos que não fingiria saber o que não sabia.

A descida para Pádua

Aos dezoito anos, em 1527, desceu das colinas para a cidade — Pádua ficava a meia jornada a pé, e era a universidade da República de Veneza, o lugar mais livre da Europa católica para se estudar o corpo humano. Ali o Senado veneziano protegia os mestres da censura de Roma, e os cadáveres dos enforcados, por decreto, podiam acabar sobre a mesa de mármore dos anatomistas. Lorenzo encontrou seu elemento. Passava as madrugadas à luz de velas de sebo, o cheiro adocicado da morte impregnado nas mãos, lendo Galeno num latim cansado e descobrindo, folha após folha, que o velho grego errara em muita coisa — porque dissecara macacos e porcos, não homens.

Foram anos de fome e de espanto. Formou-se médico em 1533. Por aqueles mesmos corredores, poucos anos depois, passaria um jovem flamengo arrogante e brilhante chamado Andreas Vesalius, que poria abaixo de vez a autoridade de Galeno; Lorenzo o viu de longe, demonstrar anatomia com as próprias mãos em vez de mandar um cirurgião-barbeiro cortar enquanto o doutor lia do alto da cátedra. Aquilo o marcou: a verdade estava no corpo aberto, não no livro lido em voz alta. Foi a divisa que carregaria pela vida — confiar no que se toca, desconfiar do que apenas se repete.

Veneza, o ofício e as folhas

Estabeleceu-se em Veneza por volta de 1535. Atendia a todos: os mercadores gordos do Rialto que comiam demais, as cortesãs que ninguém mais queria tratar, os marinheiros do Arsenal estropiados pelas cordas e pela pólvora, os apestados que os colegas mais finos evitavam. Cobrava dos ricos e perdoava os pobres, não por santidade — desprezava os santos —, mas porque achava obsceno lucrar com o medo da morte, que era, segundo ele, o único negócio em que a Igreja e os médicos eram sócios.

À noite, voltava para os aposentos modestos perto de Cannaregio e escrevia. Não livros — Lorenzo desconfiava dos que escrevem para a posteridade, que lhe parecia outra forma de vaidade religiosa, a busca de uma imortalidade de papel. Escrevia foglietti, folhas soltas, sem ordem nem propósito de publicação: o que vira na mesa de dissecção naquele dia, uma dúvida sobre onde moraria a alma se é que morava em algum lugar, uma farpa contra um bispo glutão, uma crônica do carnaval, um verso melancólico sobre uma mulher que amara e não tivera. Em todas, sempre, a mesma assinatura invisível: uma pergunta afiada escondida sob a cortesia veneziana. Elogiava para depois desmontar. Concedia para então cortar. Nunca atacava de frente — isso era para os tolos e para os mártires, e ele não pretendia ser nenhum dos dois.

Voltava, quando podia, à casa de pedra em Cinto. Era ali, entre as vinhas e o cheiro de enxofre das termas, que escrevia as folhas mais serenas — as poesias, as crônicas das colinas, as páginas em que a ironia descansava e dava lugar a algo mais parecido com ternura. Como Petrarca, que dois séculos antes se recolhera a morrer em Arquà, a um vale dali, Lorenzo sabia que há pensamentos que só vêm no silêncio das colinas, longe do barulho da cidade.

A peste e o fim

Em 1571 a peste voltou a Veneza, como voltava sempre, pontual como um cobrador. Os médicos que podiam fugiram para o continente. Lorenzo ficou. Tinha sessenta e dois anos, mãos ainda firmes, e a convicção tranquila de que abandonar os doentes para salvar a própria pele era a única heresia que de fato lhe importava não cometer. Atendeu até cair. Morreu naquele outono, provavelmente da mesma peste que combatia, num quarto cheirando a vinagre e fumaça de ervas, sem sacerdote ao lado — recusara-o — e sem medo aparente. Coerente, ao morrer, com o homem que preferira a vida toda o corpo presente à alma prometida.

As folhas ficaram. Alguém — não se sabe quem — as juntou numa pasta de couro e as guardou. A pasta atravessou quatro séculos de mãos anônimas, mudou de cidade e talvez de país, perdeu o dono e o nome, até parar na prateleira esquecida de um sebo veneziano, à espera, sem saber que esperava, do leitor certo.

"Escrevo estas folhas para ninguém, e por isso mesmo com inteira franqueza. Quem escreve para os homens mente; quem escreve para si apenas se engana, o que é mais honesto e bem mais barato." — atribuído a Lorenzo Vendramin, foglietto sem data

O Interlocutor

Do homem que encontrou a pasta, pouco se dirá — e é de propósito. É médico, como Lorenzo, e vive no século XXI. Tem o mesmo temperamento cético, a mesma impaciência com os dogmas, a mesma intuição de que a morte é menos um portão do que uma dobra. Não tem nome neste site, não tem cidade nem currículo, e assim deve permanecer: porque o que importa não é quem ele é, mas o que ele pensa diante de cada folha.

Quando leu o primeiro foglietto, não conseguiu ficar calado. Lorenzo provocava através dos séculos, e era impossível não responder — concordando aqui, discordando ali, corrigindo o mestre quando os quinhentos anos lhe davam razão, sendo corrigido por ele quando a sabedoria antiga farejava uma ilusão moderna que o presente nem percebe que tem. Assim nasceram os diálogos: não como exercício de erudição, mas como necessidade. Dois céticos conversando por cima do abismo do tempo, e descobrindo, folha após folha, que as perguntas que importam não envelheceram nada.

Para quem quiser seguir as folhas à medida que saem, há também um rastro no Instagram: @i_foglietti.

Nota de honestidade: Lorenzo Vendramin e o Interlocutor são personas literárias. A pasta de couro, o sebo, a biografia — tudo é ficção, construída com fidelidade ao que Veneza e Pádua de fato foram no século XVI. É uma máscara assumida, no espírito da própria cidade que a inventou: um rosto verdadeiro sob um rosto de mentira. As perguntas, essas, são reais.