Lorenzo Vendramin nasceu no inverno de 1509, numa casa de pedra de Cinto Euganeo, entre as colinas vulcânicas que se erguem ao sul de Pádua e que, em dias claros, se avistam lá de Veneza como uma fileira de sombras azuis. Os Vendramin não eram nobres — apesar do sobrenome que partilhavam com famílias maiores da Sereníssima —, mas pequenos proprietários de vinhas e oliveiras, gente de mãos calejadas e fé morna, que rezava por hábito e desconfiava por instinto.
O nome de Lorenzo é o que mais aparece porque a grande maioria dos textos são de sua autoria, além do fato de ter sido ele quem iniciou essa coletânea de escritos e mandou confeccionar a capa de couro onde estão todos esses textos, cuidadosamente guardados e organizados. Depois dele, a pasta passou de mão em mão ao longo de quatro séculos, e cada guardião anônimo que a recebeu acrescentou as suas próprias folhas antes de entregá-la à seguinte — de modo que o que começou como o caderno de um só homem tornou-se o depósito silencioso de muitas vozes, todas movidas pela mesma inquietação, nenhuma delas jamais publicada.
O menino cresceu naquela paisagem de termas quentes e pedreiras escuras. As colinas dos Euganeos guardavam, na rocha negra que os homens cortavam para construir, conchas e ossos de bichos que ninguém mais via vivos — criaturas de um mar que ali estivera e se fora. Foi a primeira pergunta de Lorenzo, ainda criança, diante de uma pedra partida: como pode o mar ter morado numa colina? Ninguém soube responder, e o padre da paróquia mandou que não perguntasse. Foi também a primeira vez que percebeu que a ordem de calar costuma chegar antes da resposta.
Era um menino observador e de poucas palavras, mais dado a abrir sapos e a olhar o interior das figueiras do que a decorar o catecismo. A mãe morreu quando ele tinha nove anos, de uma febre que o médico de Este não soube nomear — e essa impotência, essa cara de douto que não cura, ficou gravada nele como uma afronta. Decidiu cedo que faria melhor. Ou ao menos que não fingiria saber o que não sabia.
Aos dezoito anos, em 1527, desceu das colinas para a cidade — Pádua ficava a meia jornada a pé, e era a universidade da República de Veneza, o lugar mais livre da Europa católica para se estudar o corpo humano. Ali o Senado veneziano protegia os mestres da censura de Roma, e os cadáveres dos enforcados, por decreto, podiam acabar sobre a mesa de mármore dos anatomistas. Lorenzo encontrou seu elemento. Passava as madrugadas à luz de velas de sebo, o cheiro adocicado da morte impregnado nas mãos, lendo Galeno num latim cansado e descobrindo, folha após folha, que o velho grego errara em muita coisa — porque dissecara macacos e porcos, não homens.
Foram anos de fome e de espanto. Formou-se médico em 1533. Por aqueles mesmos corredores, poucos anos depois, passaria um jovem flamengo arrogante e brilhante chamado Andreas Vesalius, que poria abaixo de vez a autoridade de Galeno; Lorenzo o viu de longe, demonstrar anatomia com as próprias mãos em vez de mandar um cirurgião-barbeiro cortar enquanto o doutor lia do alto da cátedra. Aquilo o marcou: a verdade estava no corpo aberto, não no livro lido em voz alta. Foi a divisa que carregaria pela vida — confiar no que se toca, desconfiar do que apenas se repete.
Estabeleceu-se em Veneza por volta de 1535. Atendia a todos: os mercadores gordos do Rialto que comiam demais, as cortesãs que ninguém mais queria tratar, os marinheiros do Arsenal estropiados pelas cordas e pela pólvora, os apestados que os colegas mais finos evitavam. Cobrava dos ricos e perdoava os pobres, não por santidade — desprezava os santos —, mas porque achava obsceno lucrar com o medo da morte, que era, segundo ele, o único negócio em que a Igreja e os médicos eram sócios.
À noite, voltava para os aposentos modestos perto de Cannaregio e escrevia. Não livros — Lorenzo desconfiava dos que escrevem para a posteridade, que lhe parecia outra forma de vaidade religiosa, a busca de uma imortalidade de papel. Escrevia foglietti, folhas soltas, sem ordem nem propósito de publicação: o que vira na mesa de dissecção naquele dia, uma dúvida sobre onde moraria a alma se é que morava em algum lugar, uma farpa contra um bispo glutão, uma crônica do carnaval, um verso melancólico sobre uma mulher que amara e não tivera. Em todas, sempre, a mesma assinatura invisível: uma pergunta afiada escondida sob a cortesia veneziana. Elogiava para depois desmontar. Concedia para então cortar. Nunca atacava de frente — isso era para os tolos e para os mártires, e ele não pretendia ser nenhum dos dois.
Voltava, quando podia, à casa de pedra em Cinto. Era ali, entre as vinhas e o cheiro de enxofre das termas, que escrevia as folhas mais serenas — as poesias, as crônicas das colinas, as páginas em que a ironia descansava e dava lugar a algo mais parecido com ternura. Como Petrarca, que dois séculos antes se recolhera a morrer em Arquà, a um vale dali, Lorenzo sabia que há pensamentos que só vêm no silêncio das colinas, longe do barulho da cidade.
Em 1571 a peste voltou a Veneza, como voltava sempre, pontual como um cobrador. Os médicos que podiam fugiram para o continente. Lorenzo ficou. Tinha sessenta e dois anos, mãos ainda firmes, e a convicção tranquila de que abandonar os doentes para salvar a própria pele era a única heresia que de fato lhe importava não cometer. Atendeu até cair. Morreu naquele outono, provavelmente da mesma peste que combatia, num quarto cheirando a vinagre e fumaça de ervas, sem sacerdote ao lado — recusara-o — e sem medo aparente. Coerente, ao morrer, com o homem que preferira a vida toda o corpo presente à alma prometida.
As folhas ficaram. Alguém — não se sabe quem — as juntou numa pasta de couro e as guardou. A pasta atravessou quatro séculos de mãos anônimas, mudou de cidade e talvez de país, perdeu o dono e o nome, até parar na prateleira esquecida de um sebo veneziano, à espera, sem saber que esperava, do leitor certo.
Do homem que encontrou a pasta, pouco se dirá — e é de propósito. É médico, como Lorenzo, e vive no século XXI. Tem o mesmo temperamento cético, a mesma impaciência com os dogmas, a mesma intuição de que a morte é menos um portão do que uma dobra. Não tem nome neste site, não tem cidade nem currículo, e assim deve permanecer: porque o que importa não é quem ele é, mas o que ele pensa diante de cada folha.
Quando leu o primeiro foglietto, não conseguiu ficar calado. Lorenzo provocava através dos séculos, e era impossível não responder — concordando aqui, discordando ali, corrigindo o mestre quando os quinhentos anos lhe davam razão, sendo corrigido por ele quando a sabedoria antiga farejava uma ilusão moderna que o presente nem percebe que tem. Assim nasceram os diálogos: não como exercício de erudição, mas como necessidade. Dois céticos conversando por cima do abismo do tempo, e descobrindo, folha após folha, que as perguntas que importam não envelheceram nada.
Para quem quiser seguir as folhas à medida que saem, há também um rastro no Instagram: @i_foglietti.