Reparai numa coisa curiosa sobre a memória dos homens. O bravo que degola vinte inimigos numa manhã de batalha ganha uma estátua na praça; o veneno lento que o Conselho despeja sobre uma cidade inteira, cortando-lhe o grão até que morra de fome sem alarde, esse não ganha nome nem culpa, porque a fome não tem punho e ninguém retrata a fome a cavalo.
Vi doges serem chorados como pais da pátria tendo mandado afogar mais gente no escuro do que qualquer salteador enforcado ao sol do Rialto. E vi o salteador virar monstro nas bocas do povo, enquanto o doge virava mármore. A diferença entre os dois nunca foi o número de mortos — era o modo. Um matou de perto, com a própria mão, e a mão se vê. O outro matou de longe, por decreto, e o decreto não tem rosto que se possa odiar.
Aprendi isto na mesa de dissecção antes de aprender no mundo: o povo teme a faca e não teme a peste, embora a peste mate mil vezes mais. A faca tem intenção visível; a peste, não. E os poderosos descobriram, muito antes de mim, que se pode matar como a peste mata — sem punho, sem rosto, por dentro dos números — e assim escapar do julgamento que pega os que matam como a faca.
Há ainda a última malícia, a mais fina de todas: quem vence escreve a crônica. O vencido é lembrado por seus crimes porque foram os vencedores que os contaram. O vencedor é lembrado por suas virtudes pela mesmíssima razão. Não conheço tribunal mais parcial do que a posteridade, que absolve o carrasco que ficou de pé e enforca a memória do que caiu.
Quinhentos anos depois eu poderia te mostrar a prova da tua tese num punhado de nomes, e ela não moveu uma vírgula.
Há um homem no meu tempo que ordenou a morte de milhões, de perto, com intenção visível e método documentado. É, com justiça, o rosto do mal absoluto — a humanidade inteira aprendeu a odiá-lo, e faz bem. Mas houve outros. Um que governou um império do Oriente e é responsabilizado por número igual ou maior de mortos, por fome e por decreto; ninguém lhe cospe o nome com a mesma raiva, porque ele venceu a guerra e ficou do lado que escreveu a crônica — exatamente como tu disseste. E houve uma rainha, no auge de um império, cujo rosto está cunhado em moedas e pendurado em palácios, sob cujo reinado milhões morreram de fome em colônias distantes, o grão sendo exportado enquanto os corpos se empilhavam. Dela não se diz carrasca. Dela se diz majestade.
Um pensador do meu século, que estudou a maior das matanças modernas, deu nome ao teu veneno lento: chamou-lhe a distância moral da burocracia — o mal que se dilui em planilhas e decisões técnicas até que ninguém, em toda a cadeia, se sinta assassino. E outro escreveu uma frase que tu terias assinado: todo documento de cultura é também um documento de barbárie. A moeda com o rosto da rainha é as duas coisas na mesma face.
Só numa coisa eu te corrijo, e é uma correção que te dá razão. Tu disseste que a posteridade absolve o carrasco que ficou de pé. Eu diria: ela nem chega a absolvê-lo, porque nunca o acusou. O carrasco de perto vira réu; o de longe vira estatística, e ninguém odeia uma estatística. Não é que a história perdoe o mal difuso — é que ela não consegue nem senti-lo como mal.
Então convergimos, tu e eu, por cima do abismo dos séculos: a balança da memória não pesa vidas. Pesa a intenção que se vê e a vitória que se conta. E os mortos que caíram do lado errado, ou pela mão errada — a lenta, a sem rosto — esses caem duas vezes. Uma da vida, outra da lembrança.