Kierkegaard, em Temor e Tremor, define Abraão, no seu discurso sobre fé:
(Foi) grande pela energia cuja força é fraqueza,
grande pelo saber cujo segredo é loucura,
pela esperança cuja forma é demência,
pelo amor que é ódio a si próprio.
Belíssimo trecho — e é um dos momentos em que Kierkegaard condensa a tese inteira do livro numa série de paradoxos. Cada par é uma contradição aparente, e não é ornamento poético: é filosofia precisa disfarçada de poesia. Deixa eu abrir um por um, porque cada um aponta para um aspecto da fé de Abraão.
Primeiro, o contexto. Kierkegaard está fazendo o "Elogio de Abraão", e a estrutura da frase é uma escada de superlativos: ele vinha dizendo que houve muitos grandes homens — grandes pela força, pela sabedoria, pela esperança, pelo amor, cada um no sentido normal dessas palavras. E então chega a Abraão, que foi grande em todas essas coisas, mas em cada uma delas pela forma invertida, paradoxal. Abraão é o maior de todos porque sua grandeza é feita da negação de si mesma. Vamos aos pares.
"Grande pela energia cuja força é fraqueza." A força comum é impor a própria vontade, agir, dominar. A força de Abraão é o oposto: é a força de renunciar, de abrir mão, de se submeter ao incompreensível. Quando Deus lhe pede o filho, a "energia" de Abraão não se manifesta em lutar, resistir ou argumentar — manifesta-se em ceder. Aos olhos do mundo, ceder é fraqueza. Mas ceder aquilo — o filho, o futuro, tudo — exige uma força infinitamente maior que a de qualquer conquistador. A força dele é feita de rendição. Por isso "sua força é fraqueza": o que parece capitulação é, na verdade, a potência máxima.
"Grande pelo saber cujo segredo é loucura." Abraão "sabe" algo — sabe que deve obedecer, sabe que Deus cumprirá a promessa mesmo exigindo o filho que era o cumprimento dela. Mas esse saber não é racional; não se pode explicar, demonstrar, comunicar. Do ponto de vista da razão, é pura loucura: um homem que vai matar o próprio filho porque uma voz mandou. O "segredo" do saber de Abraão — aquilo que o sustenta por dentro — é exatamente o que, dito em voz alta, soa como insanidade. A fé sabe o que a razão chamaria de delírio. E note: ele não pode nem contar a ninguém, porque não há linguagem racional que traduza isso — daí o "segredo". Abraão é mudo (lembra do pseudônimo, Johannes de Silentio, João do Silêncio?), porque o que ele sabe não cabe em palavras que os outros entenderiam sem o chamar de louco.
"Pela esperança cuja forma é demência." A esperança comum é razoável — espero o que é plausível. A esperança de Abraão é absurda: ele espera contra toda razão. Deus prometeu que Isaac seria o pai de uma grande nação, e agora manda sacrificar Isaac. Esperar que a promessa se cumpra ainda assim, que Isaac viva e a promessa se realize mesmo através da morte ordenada — isso é esperar o impossível. Kierkegaard chama noutro lugar de "esperar em virtude do absurdo". A forma dessa esperança, medida pela lógica, é demência: ela espera aquilo que ela mesma está prestes a destruir. E é essa esperança demente que define a fé — não a esperança sensata, que qualquer um tem, mas a que persiste depois que toda base racional para ela desapareceu.
"Pelo amor que é ódio a si próprio." Este é o mais dilacerante. Abraão ama Isaac mais que a própria vida — Isaac é o filho tardio, o milagre, tudo o que ele tem. E o amor de Abraão a Deus é tão total que ele está disposto a erguer a faca contra o que mais ama. Do ponto de vista humano, isso parece ódio — como pode amar o filho e ao mesmo tempo prepará-lo para o sacrifício? E há a segunda camada: para obedecer, Abraão precisa ir contra tudo o que ele é, contra seu instinto de pai, contra seu próprio coração. O amor dele a Deus exige que ele odeie a si mesmo — que negue seu próprio ser mais profundo, seu amor paterno, sua vontade natural. O amor supremo, aqui, tem a forma do auto-aniquilamento. Amar assim é odiar-se, porque é colocar algo acima do próprio eu a ponto de estar disposto a despedaçá-lo.
O que os quatro têm em comum. Repara no padrão: em cada par, a virtude só é suprema quando assume a forma do seu oposto. Força que é fraqueza, saber que é loucura, esperança que é demência, amor que é ódio a si. Isso não é jogo de palavras — é a definição kierkegaardiana da fé. A fé é aquilo que, medido pela razão e pela ética comuns, aparece como o seu contrário. É por isso que ninguém entende Abraão, é por isso que ele não pode explicar-se, é por isso que a filosofia sistemática (os glutões de parágrafos) jamais o alcançará: porque a categoria "fé" só existe no ponto exato em que a lógica se inverte. Onde a razão vê fraqueza, loucura, demência e ódio, a fé vê a mais alta grandeza.
E aqui está a provocação final que atravessa todo o livro: a maioria das pessoas religiosas admira Abraão sem perceber o horror do que ele fez. Cantam-no na igreja como exemplo bonito de obediência. Kierkegaard está dizendo: vocês não entenderam nada. Se entendessem, tremeriam — daí o título, Temor e Tremor. Abraão não é uma figurinha edificante; é um homem diante do abismo, fazendo algo que, se qualquer um de nós fizesse hoje, seria preso como assassino. A fé verdadeira não é confortável. É aterradora. E quem a acha confortável é sinal de que tem apenas a crença morna, não a fé.
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