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Foglietto IV

Notas de um Herege Solitário

Tema: fé, crença e religião · Publicado em: 10/09/2026
Colli Euganei · Veneza

Na derradeira viagem que empreendi até Copenhague — longa travessia por mares frios e céus de chumbo — minha mente não repousou um só instante, antes se voltou, com obstinada melancolia, para certas conversações que tive com os homens do meu círculo em Veneza. Seus discursos sobre a fé, suas devoções eclesiásticas e o aparato todo de suas práticas pias foram-me remoendo o espírito durante dias inteiros, enquanto a embarcação cortava as águas cinzentas do norte.

Falam esses homens de rezas, de preces e de obras de caridade dirigidas aos enfermos e aos que padecem sob o peso da fortuna adversa. Mas tudo isso, ao meu ouvido, ressoa com a vacuidade de um tambor oco. Há neles qualquer coisa que me lembra os mercadores do Rialto, que pesam suas moedas com olho avaro — apenas que aqui o comércio se faz com divindades, e a moeda corrente é a virtude contabilizada. Parecem crer que acumulam créditos num grande livro celeste, como quem aposta num jogo de azar à espera de ser contemplado pela sorte. Barganha pura, disfarçada sob o manto da piedade.

O que mais me perturba é que, em nenhum momento de seus discursos, esses homens verdadeiramente enxergam o outro. Enxergam apenas a si mesmos, refletidos no espelho côncavo de sua própria salvação. O próximo lhes serve de pretexto — instrumento pelo qual dirigem suas preces, não objeto genuíno de compaixão. E ainda falam de homens elevados à condição de santos, por atos que supostamente desafiam a ordem natural das coisas — homens canonizados por outros homens, igualmente de carne corruptível e osso quebradiço, tudo em nome de um Deus que, de tanto ser moldado à imagem humana, já não difere muito de um senhor feudal sentado em seu trono de nuvens.

Não creio que a isso se deva chamar fé. Chamo-o de crença — coisa circunstancial, mutável, filha do medo e da conveniência. Entre fé e crença há uma distância tão vasta quanto entre a alma e o cadáver que sobre ela outrora habitou. Escrevo isto e guardo estes papéis com o cuidado de quem conhece bem os braços longos da Inquisição — pois estamos em 1845, e certos pensamentos ainda custam caro a quem os pronuncia em voz alta.

A religião, tal como a vejo, não é a morada da fé, mas antes seu cárcere. Institucionalizaram o que havia de mais íntimo e inefável no coração humano, e sobre essa ruína ergueram dogmas, hierarquias e instrumentos de culpa. Criaram o pecado para vender o perdão. Criaram a condenação para tornar indispensável a absolvição. A religião se alicerça na dor, alimenta-se da tristeza e castra o espírito com a mesma frieza com que o carrasco exerce seu ofício. A fé verdadeira, ao contrário, é coisa que liberta — ou ao menos assim a concebo, nos raros momentos em que ainda me permito concebê-la.

Penso em Abraão quando quero tocar com o pensamento algo que se aproxime da fé genuína. Aquele homem não seguia religião alguma, não se curvava a nenhum édito eclesiástico, não acumulava indulgências nem negociava com santos intermediários. Seguia seus princípios com uma fidelidade absoluta, terrível e solitária, como quem caminha pelo deserto sem mapa e sem testemunhas. Disse Silentio sobre Abraão: "grande pela energia cuja força é fraqueza, grande pelo saber cujo segredo é loucura, pela esperança cuja forma é demência, pelo amor que é ódio a si próprio". Eis o que me parece ser fé: não a observância de ritos, mas a entrega radical a algo que transcende o cálculo e o conforto. As religiões, ao longo dos séculos, não fizeram mais do que tomar essa fé e convertê-la em crença administrável, domesticada, útil ao poder e à manipulação do grande rebanho humano — esse rebanho de almas humildes e ignorantes que compõe a maior e mais trágica porção da humanidade.

Ser cético não é carecer de fé. Não pertencer a religião alguma não é viver no vazio espiritual. Muitas vezes penso que certos homens chamados ateus carregam em si uma fé mais autêntica e mais corajosa do que esses devotos fundamentalistas que repetem fórmulas como quem gira moinhos de vento.

Antonio Bianchi - fevereiro 1845

O Interlocutor · Século XXI

Bianchi, chegando a Copenhague com suas vísceras filosóficas já expostas, ali encontrou Kierkegaard sem saber, propriamente, o que havia encontrado. Leu Temor e Tremor como quem reconhece um rosto num espelho e supõe ter descoberto um irmão. Enganou-se, como frequentemente se engana quem lê com o coração antes de ler com a inteligência. A convergência que o impressionou é real, mas superficial — e a divergência mais profunda, essa ele não viu, ou preferiu não ver.

Comecemos pelo que Bianchi acerta, porque não é pouco.

A distinção que ele traça entre fé e crença tem uma elegância clínica que me agrada. A crença é, de fato, um produto cultural — uma secreção do sistema nervoso coletivo, moldada pelo medo, pela necessidade de pertencimento e pela economia simbólica do grupo. A neurociência contemporânea confirmaria Biachi sem hesitar: a crença religiosa ativa os mesmos circuitos de recompensa que o jogo, o status social, a aprovação tribal. Não há nada de transcendente no cérebro de quem reza por interesse — há dopamina, há cortisol regulado, há o alívio mensurável da ansiedade existencial. A religião institucional, nesse sentido, é uma tecnologia de gestão do sofrimento — eficaz, diga-se, mas não mais sagrada do que um ansiolítico.

Foucault diria o mesmo com vocabulário diferente: a confissão, a penitência, o exame de consciência são dispositivos de poder que transformam a interioridade em superfície administrável. Criaram o pecado para vender o perdão — escreve Bianchi, e escreve bem. Criaram o sujeito culpado para que o sujeito culpado precisasse de absolvição. A Igreja não descobriu a alma humana. Fabricou-a, nos termos que lhe eram convenientes.

Até aqui, Bianchi e eu caminhamos juntos.

Mas é precisamente quando ele invoca Kierkegaard — ou melhor, Johannes de Silentio, que hoje sabemos ser um de seus pseudônimos, que a análise começa a claudicar.

Biacnchi leu Abraão como um espírito livre. Como um cético avant la lettre, um solitário que caminha sem mapa e sem testemunhas, fiel apenas a seus próprios princípios. É uma leitura sedutora, mas é uma leitura errada — e Kierkegaard a teria corrigido com aquela crueldade gentil que era sua marca.

O Abraão de Temor e Tremor não é um livre-pensador. É algo infinitamente mais perturbador.

Kierkegaard elabora três estádios da existência — o estético, o ético e o religioso — e o movimento de Abraão pertence ao terceiro, que não é uma elevação do segundo, mas uma suspensão dele. O escândalo de Abraão não é que ele tenha seguido seus princípios com fidelidade absoluta. É precisamente o contrário: ele os violou. Do ponto de vista ético — que é o ponto de vista de Bianchi, o ponto de vista do humanismo ilustrado, o ponto de vista que confunde fé com integridade moral —, Abraão é um assassino. Não há argumento racional que justifique levar uma faca à garganta do próprio filho. Nenhum princípio humano, nenhuma ética universal, nenhuma filosofia dos Rialtos ou das mesas de dissecção pode absolver esse ato.

E é exatamente isso que Kierkegaard chama de salto — esse movimento absurdo, irracional, solitário e incomunicável pelo qual Abraão suspende o ético em nome do religioso. Abraão não pode explicar o que faz. Não pode partilhar com Sara, não pode partilhar com Isaac, não pode partilhar com ninguém — porque no instante em que tentasse explicar, o ato se tornaria ético novamente, e portanto já não seria fé, mas argumento. A fé kierkegaardiana é, por definição, o que não pode ser mediado pela linguagem racional. É o paradoxo absoluto.

Bianchi, sem perceber, celebrou em Abraão exatamente o que Kierkegaard disse ser impossível de celebrar sem primeiro tremer.

Aqui reside o abismo entre o médico veneziano e o filósofo dinamarquês: Bianchi quer uma fé que liberte, que seja corajosa, que seja autêntica — mas quer, no fundo, uma fé que ainda faça sentido. Uma fé que o cético possa respeitar. Uma fé que caiba dentro da razão, mesmo que nas suas margens mais largas. Kierkegaard responderia que essa fé não é fé — é apenas uma crença mais sofisticada, mais elegante, mais bem-vestida, mas igualmente doméstica.

A fé verdadeira, para Kierkegaard, é angústia. É o Angst que Freud reconheceria depois como sinal de algo irresolvível no aparelho psíquico — não a angústia que se cura com a análise ou com o bisturi, mas a que permanece como condição estrutural da existência. Jung chamaria ao mesmo território o encontro com o numinoso — aquilo que fascina e aterra simultaneamente, que não se integra à consciência sem a despedaçar primeiro.

O que Vendramin descreve com admiração em Abraão — a solidão, a ausência de testemunhas, a entrega radical — é precisamente o que Kierkegaard chama de tremor. Mas Vendramin parou antes do temor. Ficou com a estética da solidão heróica e não desceu ao fundo do poço, onde Abraão não é herói nenhum, mas um homem que está prestes a matar o filho e não sabe, até o último instante, se a voz que ouviu era de Deus ou de sua própria loucura.

Essa distinção não é menor. É o abismo entre a filosofia e a teologia, entre a razão e o paradoxo, entre o médico que abre corpos e o homem que fecha os olhos no escuro.

Vendramin termina seus escritos com a paz melancólica de quem sabe não estar sozinho. É uma conclusão honesta e humana. Mas Kierkegaard não lhe ofereceria essa paz. Diria, com sua ironia dinamarquesa e levemente cruel, que a solidão de Abraão não é a solidão confortável do intelectual entre seus livros — é a solidão de quem não pode ser compreendido por ninguém, nem mesmo por si mesmo, e ainda assim age.

Quanto a mim, leio Vendramin com simpatia e leio Kierkegaard com respeito — e não me permito escolher entre eles, porque suspeito que a tensão entre os dois é mais fecunda do que qualquer resolução. O bisturi e o paradoxo. A anatomia e o abismo.

Ambos, afinal, inclinados sobre a mesma mesa.

O Interlocutor

a voz de agora
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